terça-feira, 27 de julho de 2010

Correios ensinam candidatos a captar votos

ANDREZA MATAIS
FILIPE COUTINHO
DE BRASÍLIA

Quais as dicas para uma campanha vitoriosa? Fale da razão de sua candidatura. Defenda bons salários para os professores. Identifique os seguimentos que quer atingir. Jovens? Aposentados? Fale diretamente com eles.

As orientações acima foram extraídas do site oficial dos Correios e fazem parte do "Espaço do Candidato", local reservado pela estatal para tentar vender selos, aerogramas e envelopes personalizados com foto e nome dos candidatos nas eleições.

Os Correios orientam como deve ser a comunicação com o eleitor para o sucesso da campanha: "Sempre comece falando sobre a razão de ser da candidatura. Aquilo que o candidato considera o apelo mais importante".

O próximo passo é fazer promessas fundamentadas. "Afinal, o mais importante nessa hora é manter a mensagem na mente do eleitor."

De acordo com o material dos Correios, o bom candidato é aquele que consegue sensibilizar seus eleitores. Para chamar a atenção, a estatal recomenda também a elaboração "cuidadosa do layout" da campanha.

Os Correios se comprometem a avaliar o material a ser enviado para os eleitores. Segundo o "manual", a comunicação postal é "imbatível".

Para o procurador Luiz Carlos Santos Gonçalves, especialista em direito eleitoral, a prática é "escandalosa" porque os Correios estão prestando uma espécie de consultoria às campanhas, o que não tem relação com a atividade da empresa.

José Matias, professor de administração da UnB, considera que os Correios podem procurar candidatos para vender seus serviços, mas "ultrapassa os limites de sua atuação quando faz consultoria e marketing".

Os Correios apostam na venda desses produtos como forma de aumentar o faturamento da empresa, que enfrenta crise com atraso na entrega de correspondências e realização de concurso.

OUTRO LADO

O diretor comercial dos Correios, Ronaldo Takahashi, admitiu que o material de divulgação "extrapolou" o objetivo da empresa de apenas vender seus produtos para as campanhas eleitorais.

"Nós não podemos interferir no material que o candidato irá enviar ao seu eleitor. Vou reavaliar para alterar isso. Não pode ficar da forma como está", afirmou.

Até a noite de ontem, no entanto, o material continuava disponível na página oficial da estatal.

Embora o projeto tenha sido elaborado por sua equipe, Takahashi disse que não havia se dado conta de que incluía uma espécie de consultoria aos candidatos.

Segundo ele, esta é a primeira vez que os Correios lançam esse serviço. Na última eleição, o projeto foi feito, mas de forma embrionária. "Nós queremos que o candidato saiba que existe uma alternativa à internet, que é a mídia postal".

Fonte: FOLHA.COM